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Entenda por que os conselhos de administração são essenciais para integrar a agenda climática nas estratégias corporativas
Considerando esses fatores, fica cada vez mais claro que a pauta climática precisa fazer parte das estratégias corporativas. Os modelos financeiros tradicionais utilizados para a tomada de decisões empresariais precisam ser ampliados para incluir considerações ambientais.
Aliás, focar apenas no retorno financeiro, sem levar em conta os impactos climáticos e ambientais, pode ser considerado uma negligência por parte dos conselhos. É isso que apontam as duas especialistas que entrevistamos: Jandaraci Araujo, cofundadora do Conselheiras 101, e Gabriela Blanchet, coordenadora e embaixadora da Chapter Zero Brazil.
Apesar de o clima e a natureza estarem mais prevalentes em reuniões executivas, ainda há muito a se fazer para que passem efetivamente a ser considerados nas decisões estratégicas das empresas. Entenda:
A situação não é muito melhor no Brasil.
A segunda edição da pesquisa Board scorecard: a atuação dos conselhos frente aos impactos climáticos e à estratégia net zero, realizada pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) e pelo Chapter Zero Brazil, revela que a emergência climática ainda não é uma pauta presente na agenda temática da maioria dos conselhos das empresas brasileiras e tampouco tem sido tratada por comitês especializados.
Jandaraci Araujo, cofundadora do Conselheiras 101 (programa que visa a inclusão de mulheres negras em conselhos de administração), concorda que ainda há muito a ser feito.
Em 2019, o Fórum Econômico Mundial publicou uma carta que indica os oito princípios para uma governança eficaz na questão do clima.
Gabriela destaca que o primeiro deles é o princípio que reforça a responsabilidade dos conselhos “pela resiliência da empresa no longo prazo no que se refere a possíveis alterações no cenário de negócios oriundas das mudanças climáticas. Não cumprir com essa responsabilidade pode constituir uma violação dos deveres dos conselheiros”.
“Ou seja, a incorporação das questões climáticas na pauta dos conselhos e na estratégia de negócios é parte dos deveres fiduciários dos conselheiros. Isso se torna evidente quando consideramos casos recentes de litigância climática, que sinalizam como as pessoas estão atentas à atuação dos conselheiros dentro das organizações, e que as empresas serão cada vez mais cobradas a apresentar planos robustos de transição e neutralização de emissões”, destaca.
Jandaraci reforça que os conselheiros desempenham um papel multifacetado e crucial na resposta à emergência climática, impactando todas as áreas da organização.
“Os conselheiros fornecem orientação estratégica, promovendo a conscientização, influenciando políticas e práticas e garantindo o engajamento e a participação das organizações de que fazem parte. Contribuir para uma solução em rede para os desafios complexos e interconectados do sistema climático, para identificar as melhores estratégias de resposta, pode levar a debates sobre a eficácia e viabilidade de diferentes abordagens”, salienta.
Ainda abordando o papel dos conselheiros, Gabriela complementa que, entre suas principais responsabilidades, destaca-se a definição da estratégia e o acompanhamento da sua execução, direcionando o negócio e garantindo a capacidade de inovação e adaptação da empresa às transformações relevantes de cenários nos quais atuam.
“Neste sentido, ao incorporar as questões climáticas na estratégia de negócios, o tema passa a ser abordado, tratado e discutido de forma holística e sistêmica na organização. O conselho desempenha um papel importante nesse planejamento e foresight. Algumas empresas têm feito exercícios de cenarizações, considerando por exemplo os impactos do e para o negócio caso haja um aquecimento global superior a 1.5 °C e o quanto isso impactaria na operacionalização dos negócios, inclusive olhando para possíveis impactos na cadeia de valor e transformações geopolíticas, por exemplo”, conta.
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Na visão de Jandaraci, o debate sobre as mudanças climáticas nas organizações geralmente é travado por uma série de fatores, tais como a falta de colaboração e interesses econômicos.
“Setores como os de combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás) podem ver sua lucratividade reduzida no processo de transição energética. Sendo assim, criam barreiras políticas contra pautas climáticas mais ambiciosas – vide o movimento de backlash ambiental nos EUA. Além disso, há uma falta de cooperação entre setores públicos e privados, bem como entre países, o que dificulta a implementação de ações eficazes”, destaca.
Além disso, a especialista afirma que o negacionismo também afeta o avanço da agenda climática nas organizações.
“Divulgações enganosas sobre a ciência do clima, aliadas ao posicionamento de governos e organizações que negam a existência ou a gravidade das mudanças climáticas, enfraquecem o apoio público e político para medidas de mitigação e adaptação. Superar esses desafios requer um esforço conjunto e coordenado de governos, empresas, organizações da sociedade civil e cidadãos individuais, bem como uma abordagem abrangente que leve em consideração as dimensões sociais, econômicas e políticas da emergência climática”, aponta Jandaraci.
Sobre essa questão, Gabriela indica que, para superar visões que minimizam ou desconsideram a crise climática, é importante redirecionar o foco, ressaltando o impacto nas empresas.
“Ainda que não se acredite no aumento, na intensidade e na frequência com que os eventos climáticos extremos têm ocorrido no planeta nos últimos anos, o fato incontestável é que eles estão acontecendo e, de alguma forma, seja direta ou indiretamente, impactarão na operacionalização dos negócios no mundo inteiro. As organizações precisam estar preparadas para isso”, sublinha.
A especialista acredita que o debate deve se concentrar tanto no impacto das atividades das organizações que potencializam as mudanças climáticas quanto em como estão se preparando para enfrentar esses impactos em seus negócios.
“Essa conscientização é importante, pois leva à incorporação do tema na estratégia dos negócios, para além da atuação da área de sustentabilidade. As empresas que dependem mais de serviços ou produtos provenientes da natureza para operar talvez sintam mais intensamente os impactos das mudanças climáticas do que outras empresas que ainda não conseguem visualizar concretamente as consequências de eventos climáticos extremos na operacionalização de seus negócios. Porém, nenhuma empresa está fora do alcance das implicações que as questões climáticas podem gerar”, reflete.
Nesse sentido, ela cita o exemplo das migrações climáticas, que por vezes afetam a cadeia de valor, a economia regional e até implicam em transformações geopolíticas.
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Na visão de Jandaraci, para que a responsabilidade climática seja integrada às decisões estratégicas do conselho, é fundamental que as empresas estabeleçam um compromisso firme e uma abordagem abrangente, com metas e métricas claras.
Nessa linha, ela afirma que uma das ações prioritárias que podem alavancar essas ações é a alfabetização climática de todos os conselheiros e lideranças.
“Deve-se garantir que os membros do conselho estejam adequadamente informados e educados sobre as questões climáticas, incluindo os fundamentos da ciência do clima, os impactos das mudanças climáticas no setor específico da empresa e as melhores práticas para reduzir as emissões e promover a resiliência”, recomenda.
Gabriela também acredita que a conscientização dos conselheiros em relação ao impacto das mudanças climáticas é crucial para que o clima passe a fazer parte das decisões estratégicas.
Segundo a coordenadora do Chapter Zero Brazil, os conselheiros devem assegurar o tratamento adequado do tema, reforçando a importância de olhar para os riscos e oportunidades climáticas que são materiais para o negócio.
Além disso, Gabriela defende que para avançar na resolução da emergência climática, é necessário um compromisso mais forte e coordenado em nível global, bem como a implementação de políticas e práticas sustentáveis em diferentes setores da sociedade.
“Isso inclui medidas para reduzir a dependência de combustíveis fósseis, promover a energia renovável, proteger ecossistemas naturais, adaptar-se aos impactos inevitáveis das mudanças climáticas e colaborar internacionalmente para enfrentar esse desafio comum”, destaca.
Jandaraci concorda com a necessidade de colaborações em torno de soluções climáticas, tanto dentro da empresa quanto por meio de parcerias externas. “Isso pode envolver investimentos em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias limpas, colaboração com outras empresas e organizações da sociedade civil e participação em iniciativas de sustentabilidade setoriais”, indica.
Leia também: Como incorporar a sustentabilidade em todas as áreas do negócio
O Chapter Zero Brazil tem como principal objetivo oferecer suporte e orientação aos conselheiros e à alta liderança de empresas na incorporação de práticas de governança climática em suas estratégias e operações.
A seguir, listamos alguns materiais educativos da iniciativa que visam orientar conselheiros sobre como incorporar o plano de mudanças climáticas às estratégias de seus respectivos negócios:
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