Diretor-executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental alerta: usar ESG como massa de manobra para alimentar campanhas de marketing é a receita para seguirmos pelo caminho da insolvência
O avanço do termo ESG e o intenso movimento de corporações desejando se enquadrar nesse novo marco exigem algumas considerações importantes, caso a intenção seja realmente mudar cenários.
É notório que estamos presos a padrões de desenvolvimento que precisam ser reavaliados com profundidade. Porém, realizar esse conjunto de mudanças de forma efetiva não representa tarefa simples.
O desafio em questão é se os grupos setoriais que abrangem diversas atividades econômicas estão verdadeiramente dispostos a garantir que essas mudanças ocorram.
No início da década de 90 passamos por um movimento semelhante, quando a adjetivação ‘sustentabilidade’ foi agregada ao termo desenvolvimento.
É curioso perceber que, quase por consenso, admitimos que o desenvolvimento convencional não correspondia às necessidades adequadas para gerar riquezas e, ao mesmo tempo, garantir equilíbrio em questões sociais e ambientais.
Um interessante cenário de ‘mea culpa’ que dava conta, à época, de que era preciso estabelecer mudanças para atender urgências de interesse público, a partir de uma nova forma de desenvolvimento.
Uma avaliação genérica sobre os avanços obtidos nas últimas três décadas permite considerar que houve progressos pontuais na evolução dos negócios em busca da sustentabilidade.
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Na área da conservação do patrimônio natural, por exemplo, ainda é muito difícil identificar empresas que buscam atender a essa demanda, incorporando a conservação da natureza como parte do seu negócio.
Seguimos com cenários de crise no campo social e ambiental, já com evidências de que o tempo para ações mais efetivas está ficando extremamente reduzido.
Além disso, ainda não temos respostas mais contundentes para o real enquadramento de nossas atividades econômicas com uma condição de equilíbrio com ajustes inquestionáveis no campo social e dentro de limites que o nosso planeta pode assimilar.
O termo “emergência climática”, cunhado nas Conferências do Clima, não surge sem uma base de sustentação qualificada e com base em ciência, que evidencia nosso descompasso entre o discurso e a prática. O buraco, em última instância, está ficando mais fundo.
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No Brasil, vivenciamos nos últimos quatro anos o reflexo da pressão representada pelo “lucro a qualquer custo”. Ao mesmo tempo, o termo ESG ganhou espaço e agitou o mercado de consultorias especializadas, que se adaptaram rapidamente para atender às novas demandas impostas às corporações.
Nesse contexto, foram notórias as frentes políticas e econômicas que preconizaram de forma ainda mais exacerbada o que sempre foi a nossa realidade: um comportamento negacionista e muito pragmático, em defesa de maior margem de resultados, em deferência ao cumprimento das regras necessárias para que parâmetros de sustentabilidade sejam respeitados – o que inclui o próprio cumprimento das Leis.
Aqueles profissionais que se apresentam para responder a essa linha de atuação devem se preparar para fazer frente ao que está sendo demandado.
Por fim, é preciso ter em consideração o exemplo da onda da sustentabilidade de décadas passadas, que, em grande parte, malogrou dramaticamente. Essa nova oportunidade de enfrentar com seriedade e determinação os desafios existentes, repaginada com outra denominação, não pode ser desperdiçada.
Usar ESG como massa de manobra para alimentar campanhas de marketing, suportadas por iniciativas inconsistentes, é a receita para seguirmos pelo caminho da insolvência no qual nos encontramos.
A empreitada dos especialistas em ESG enfrentará um grande desafio caso governos e grupos setoriais não mudem sua postura alinhada ao “business as usual”. É crucial evitar o desperdício de todo esse investimento novamente.
O momento é de reflexão sobre qual o caminho nos aguarda para os próximos poucos anos:
Os resultados esperados só serão alcançados quando houver uma percepção mais consistente de que é necessário adotar uma abordagem alinhada com as reais necessidades de alteração das práticas que impulsionam os negócios. A falta desse alinhamento torna o alcance dos objetivos propostos altamente improvável.
Não faltam críticas contumazes ao que estamos realizando hoje no Brasil nesse campo. Cabe saber se os tomadores de decisão e os profissionais envolvidos assimilarão essas contribuições como fundamentais para o avanço positivo que, teoricamente, todos estamos buscando.
*Clóvis Borges é diretor-executivo da SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental)
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